Lendas e tradições

Dada a ancestralidade da região, muitas são as tradições relacionadas com algumas das festividades que se comemoram na Freguesia, pelo que se desenvolvem, de seguida, pequenos intróitos históricos, levados a efeito pelo Grupo Etnográfico de Lorvão.
 
A festa de São João coincide com o solstício do estio, fenómeno astronómico dos mais dominantes nos antigos cultos siderais e ainda hoje solenizado por todos os povos indo-europeus. As homenagens ao Sol vitorioso e ao Sol fecundador, todas as superstições ligadas à grande festa astrológica, foram das mais persistentes através das modernas religiões; debalde se julgou riscar, um dia, no calendário de Roma, as vetustas solenidades pagãs: modificadas, alteradas nos nomes, substituíram os cultos e foi necessário transigir, aceitando práticas e fórmulas cuja infiltração, esforço algum eliminatório conseguiu deter. O Jesuíta cristianizara a China, pensou alguém, se não fora certo escrúpulo ininteligente de Roma, que não permitiu a adopção de cerimónia e costumes búdicos, nem o culto dos antepassados.
 
Do púlpito, Santo Eloi, no século VII, pregava: “Eu vos peço (…) que na festa de São João e em outras solenidades dos santos, se não faça uso do solstício; que se não entreguem a danças, a jogos, a corridas, a coros diabólicos”. Mais recentemente, nas constituições do bispado de Lamego, datadas de 1639, escrevia-se o seguinte: “Pode-se também pôr em exemplo (de superstição) no que se tem introduzido em dia de São João Baptista, que se colham as ervas e levem água da fonte para casa, ou se lave a gente e os animais nela, antes do Sol nascer, metendo a gente de pouco saber que redunda em honra e louvor do santo”. 
 
Debalde, a grande festa do Sol triunfante e fálico subsistiu e, com ela, os resíduos dos cultos do fogo e das pedras, das plantas e das águas; destas últimas as virtudes crescem – nem veneno, nem poder diabólico – na universal hossana ao astro. Impotente para destruir, a igreja procurou, ou consentiu, em identificações e em equivalências: as fogueiras são, na terra, símbolo dos fogos celestes, a grande luz que nesta noite inflamava o céu, nas antigas crenças; a água do baptismo é o sinal da Redenção que São João instituiu, como já fora a água colhida, nesta noite, a fecundadora, a divinatória e a salvadora.
 
S. João bom santo
Se não fosse tão gaiato
Levava as moças p’rá fonte
Iam três e vinham quatro
 
À porta de S. João
Nascem rosas amarelas
S. João subiu ao céu
A pedir pelas donzelas.
 
A solenidade do Natal, ao contrário do que muitos pensam, não é a referida nas notícias mais remotas que, nos seus primeiros escritos, nos legou o cristianismo, provando-se que, não foram os apóstolos que a introduziram. As investigações relativas ao dia precedido da natividade do Salvador não resolveram uma data justa. Inteligentemente, os chefes da igreja do ocidente, em face da grande e funda solenidade anual celebrada em Roma e chamada a festa do nascimento do Sol invencível, decidiram fazer coincidir com o nascimento de Cristo, em pleno século IV. Pouco a pouco, a intenção primitiva da homenagem ao renascimento do astro, foi alterada, apesar de se não expurgar completamente, dos costumes, dado que certos usos e superstições sobreviveram até aos dias de hoje, um pouco por toda a parte.
 
É o caso dos festins que quase toda a humanidade realiza nesta época. Há iguarias especiais características da Festa, os mexidos ou formigos, as filhós ou coscoréis, o vinho quente com mel, as rabanadas, certas broas e bolos. Estas doçarias, conforme averiguaram os mitologistas, são o vestígio dos antigos sacrifícios em homenagem aos deuses.
 
No princípio, mesmo os bolos tinham a forma dos animais abatidos no momento em que se desejava tornar propícias as divindades. O intuito cultural encontra-se perdido, mas, paulatinamente, se vai explicando a celebração da Festa com jantares ou ceias lautas. A matança do porco, que em muitas terras, como em Lorvão, se efectuava só em Dezembro; a cabeça do javali era obrigatória em dia de Natal, nas mesas alemãs; o lugar do mel, sagrado em numerosas mitologias, na confecção de determinados doces; entre outros elementos, enfim, são algumas das sobrevivências desse passado a considerar. De resto, costumes houve, já extintos, dos quais nos fica hoje a indicação histórica.
 
Quase todo o mês era ocupado em merendas e jantares. Nos sete dias que precediam o Natal, havia, nas colegiadas e mosteiros, as pitanças, servindo-se aos convidados, vinhos e frutas secas; mas, ano a ano, foi decaindo o costume até findar de vez, pois segundo um cronista, “se juntava muita gente de desvairadas maneiras, entre as quais eram pessoas, que depois de beberem diziam e faziam muitas enormidades e alevantavam arruídos e contendas”. Depois da festa, prosseguiam os beberetes e os repastos, a pretexto de certas funções de igreja, terminadas sempre pela reunião dos membros das confrarias em lautos banquetes. Até que, pelos Reis, cessavam as festas, as consoadas, as ofertas, de cujo costume ainda restam vestígios das sternas dos romanos, que o cristianismo tanto tentou combater, mas nunca conseguiu impedir.
Na véspera de Natal, armam-se nas casas e nas igrejas as lapinhas ou presépios, representando o nascimento de Jesus, sob um telhado miserável e com toda a decoração pastoril.
 
Era, aliás, diante deles que se representavam, outrora, colóquios, entremezes e vilancicos ou se entoavam as loas de Natal.
 
A árvore do Natal, representante árvore do Sol que renasce todos os anos, passado o solstício do Inverno, não está vulgarizada entre nós, como o presépio. Pelo contrário, assiste-se a um divertimento de imitação, introduzido há alguns anos, sem qualquer carácter popular. Entretanto, o enfeite do pinheiro com fitas, brincos e doces, adornado de flores e iluminado, coexiste nos países do Norte, com outro costume, também praticado em terras portuguesas, tratando-se da queima do cepo ou do trafogueiro. Em muitos lugares, na tarde da véspera de Natal, vai-se buscar um dos mais grossos troncos do redor e conduz-se para casa, para um largo ou para o adro de uma igreja, dançando e em descante. Lança-se-lhe o fogo e baila-se em torno do mesmo até à hora da missa do galo, começando a debandada, depois da cada um adquirir e guardar um fragmento que, em casa, afasta a peste, dá a fecundidade aos campos e, com um ramo de oliveira benta, afugenta, para o maninho, as trovoadas.
 
Em Lorvão, especificamente, no dia de Natal, levam-se para a missa as chamadas fogaças (tabuleiros ornamentados) com doces natalícios, carnes de porco, morcela, linguiça (da matança), feijões, milho e vinho, que são ofertadas ao Menino Jesus deitado no Presépio.
 
O fim da celebração termina com o beijar do menino. O Senhor Padre, debaixo de um pálio bordado a ouro e prata, dá a beijar a imagem do Menino Jesus. No lado esquerdo do altar-mor, ficam alguns músicos que vão tocando algumas melodias de adoração, acompanhadas pelo povo.
 
Ó Infante suavíssimo
Ó meu amado Jesus
Vinde alumiar a minh’ alma
Vinde dar luz ao mundo.
 
Ó Infante suavíssimo
Deus de infinita beleza
Vinde ilumiar a minh’ alma
Abrandar a sem dureza.
 
No final do ritual, as fogaças são leiloadas no adro da igreja, revertendo, os fundos, para as despesas da igreja.
 
A época do Carnaval, em Lorvão, reveste-se de alegria como em qualquer parte do país. Realizam-se bailaricos acompanhados com grandes conjuntos ou, simplesmente, tocadores da terra; formam-se cortejos carnavalescos; ranchos de carnaval ou grupos de contradança que, de rua em rua, cantam e dançam contradanças e cantigas de ocasião.
Para além de todas estas brincadeiras, há ainda outras tradições carnavalescas com grandes características locais, tais como:
O Assuriar: uso que ainda se mantém, tem origens no povo celta que pretendia “engrandecer” o cavalo, objecto do seu culto. Esta justificação será melhor entendida, se tivermos em conta que o assuriar é uma espécie de grito muito próximo ao relinchar do cavalo. Em Lorvão, este grito anuncia o Carnaval, dado que é usado já a partir do Ano Novo, para além de ser usado para escarnecer, ou simplesmente, brincar, mas sempre com uma vertente unicamente lúdica.
Os Badalos: esta prática consiste numa ou várias pedras amarradas à ponta de um cordel e penduradas às portas, com uma função semelhante à de um badalo, daí a sua denominação. Esse fio tem de ser suficientemente grande, de modo a que o grupo de pessoas escondido, o possa puxar para que as pedras batam na porta. Por outro lado, o referido grupo deve esconder-se em local com visibilidade para que se possa aperceber da reacção das suas vítimas. Este é um uso nocturno, quando as pessoas já estão deitadas, o que provoca um efeito desagradável e irritante que os faz sair de casa, à procura do grupo provocador, muitas vezes sem se aperceberem da forma como trajam.
Os Pulhas: esta é uma tradição que se baseia numa conversa entre duas pessoas ou dois grupos, em dois locais altos e opostos, servindo-se de funis ou de canudos. Nessa conversa, que decorria no silêncio da noite, divulgavam-se os segredos da vida particular das pessoas da terra, passando toda a gente a ter conhecimento desses segredos.
As Cacadas ou Caqueiradas: Consistia em atirar cacos, pedras, telhas e tijolos velhos, para dentro da casa das pessoas, sem elas verem, com o intuito de sujar e, ao mesmo tempo, assustar os donos da casa.
Em Lorvão, colocam-se todos os objectos dentro de cântaros velhos de barro que, ao serem atirados para dentro das casas, se partem, provocando grande alarido.
Os Cheirotes: esta prática nem sempre gozava do agrado da população. Numa vasilha velha (lata, caçoilo ou balde), queimava-se borracha, sapato velho ou qualquer coisa que cheirasse mal, como por exemplo, o enxofre. Essa vasilha era, depois, colocada dentro de uma casa, de modo que os donos não se apercebessem, dando conta da brincadeira, apenas quando lhes cheirasse mal. Geralmente, era feito à noite, à hora de jantar, para surtir melhor o efeito desejado pelos provocadores.
Entrudos e Mascarados são pessoas que se vestem com roupas velhas, que tapam a cara com meias ou máscaras e põem lenços e chapéus, calçam os sapatos ao contrário, de maneira a ficarem irreconhecíveis, até pelo andar. Munem-se de paus, bengalas e guarda-chuvas para bater ou ameaçar quem tente descobri-los. Andam pelas ruas, vão a casa de uns e de outros, assustando ou, simplesmente, brincando.
Os Mascarados Velhos eram, como o nome indica, pessoas mais idosas, homens que, com cestos, cheios de tripas de porco, por lavar, se chegavam ao pé de outras pessoas e, com a ajuda de um palito ou agulha, as picavam e apertavam, fazendo espirrar as ditas tripas para cima dos transeuntes descuidados.
Os Mascarados Novos eram rapazes, com a cara tapada, com chapéus grandes feitos de papel, lenços traçados nos ombros por cima de uma camisa branca de linho e colete vermelho tudo bordado à mão. Os calções eram do tipo de toureiro, vermelhos e bordados com lantejoulas. Nas pernas e braços, pendiam guizos e, na cintura, espadas de madeira.
O obectivo destes mascarados era o de arreliar as raparigas e, para isso, traziam peles de coelho cheias de palha, que roçavam na cara e nas pernas das raparigas.
O Enterro do Entrudo é outra prática muito usual em algumas regiões do nosso País. Faz-se um boneco de palha, do tamanho normal de uma pessoa, vestido com roupa velha. Depois, em cortejo, passeia-se o Entrudo, pelas ruas da Freguesia, acompanhado de autênticas carpideiras que o choram, pois vai ser queimado. O Entrudo é, então, transportado às costas de uma senhora idosa que vai gritando o destino do boneco. Depois de queimado, são atiradas as cinzas para a ribeira de Lorvão. A este ritual dá-se, também, o nome de Queimar o Judas.
 
A Quaresma é o período de tempo que intercala o Carnaval e a Páscoa. Trata-se de um tempo de reflexão e oração, depois da folia do Carnaval, pelo que não se realizam bailes, nem festas profanas, durante este período.
Antigamente, em Lorvão, a Quaresma era tempo de privações, mesmo ao nível da alimentação, que se baseava no feijão com arroz. Por outro lado, era uma época de muitas celebrações religiosas, cantares de rua que ainda persistem. Exemplo disso, são:
- O Amentar das Almas, cântico nocturno, que se houve diariamente, durante as sete semanas da quaresma, junto das alminhas do Rio da Ponte.
- As Almas Santas traduz-se num cântico que se organiza, durante uma única noite, em que dois grupos vão cantando pelas ruas às alminhas, fazendo um peditório para rezar missa pelas mesmas.
- O Pequei é igualmente um cântico nocturno que, noutros tempos, era recitado apenas por vozes masculinas, mas que, actualmente, abrange já as femininas. Trata-se de uma espécie de Via Sacra cantada, pelas ruas da Freguesia, em sítios determinados, todas as sextas-feiras do mês de Março.
- A Festa do Senhor dos Passos é, sem dúvida, o ponto mais alto deste período de recolhimento. Esta festa organiza-se bienalmente, quinze dias antes do domingo de Páscoa. É uma grande festa religiosa, com cerca de 350 anos de existência, à qual acorrem peregrinos de várias pontos da região. Aqui, são recriados e vividos, todos os momentos da Paixão de Cristo, onde a figura principal é Verónica, a mulher que limpou o rosto de Cristo, a caminho do Calvário.
A Verónica era, e ainda é, escolhida entre as adolescentes da população. Durante quinze dias, ela é preparada por uma pessoa mais velha, que já desempenhou aquele papel. Essa preparação é feita ao nível da voz, consistindo em mesinhas de gemas de ovos e outras que, afirmam, eram eficazes. Antigamente, a moça escolhida não ia lavar à ribeira e a sua alimentação era mais rica, pois era apaparicada por todos, no intuito de a protegerem de qualquer doença. Nessa altura, ela tinha, igualmente, uma educação diferente, em suma era tratada como se de uma santa se tratasse.
Esta festa tem o seu início na tarde de sábado, com a apresentação da Verónica, na igreja. À noite, organiza-se uma procissão, na qual ela não participa (por razões óbvias), em que se transporta a imagem do Senhor Morto, da igreja do Mosteiro para a igreja velha (a antiga matriz). Este cortejo, processa-se em silêncio, fazendo-se ouvir apenas a Filarmónica Boa Vontade Lorvanense, que toca marchas fúnebres, em alguns locais predestinados para o efeito, visto que se trata da Procissão do Senhor Morto.
No domingo de manhã, a imagem regressa à igreja do Mosteiro e é pregada na cruz, num espaço (geralmente, ao lado da porta do templo) decorado a preto e roxo, que simboliza o Calvário, sendo, de seguida, tapada com um manto, igualmente preto. Segue-se a Eucaristia.
À tarde, por volta das 14 horas, prepara-se a procissão com o sermão do Purgatório. Posto isto, dá-se início à procissão que sai do jardim do próprio Mosteiro. Esses passos são anunciados de forma incomum por um grupo de músicos da filarmónica que canta os Motetos, cânticos em latim que transmitem a dor, a piedade e o sofrimento de Cristo. É aí que também ocorre o Sermão do Encontro, entre Jesus e Sua Mãe, feito de um coreto, por um dos Padres convidados para o efeito. Segue então a procissão, que abre um guião roxo, com duas orlas de cada lado, entregues a duas crianças que, no fundo, definem a largura do cortejo. Na mesma, transporta-se a imagem de Jesus com a cruz aos ombros e a imagem de Nossa Senhora, ao som das marchas fúnebres da Filarmónica. O padre, que vai debaixo de um pálio roxo, leva uma cruz, mandada fazer por Santa Teresa, com lenho da própria cruz de Cristo, sendo por isso designada por Santo Lenho.
A Verónica não assiste a nenhuma destas cerimónias porque já se encontra no calvário (no cimo do monte com a mesma designação). Quando chega a Procissão, cantam os motetos e a Verónica limpa o rosto de Cristo, cantando de seguida, o O Vos Omnes:
 
“O Vos omnes qui transistis
Qui transistis
Perdiao
Atendite, atendite
Deo videte
Si es de dolor
Sico de dolor
Sico de dolor – muns
Atendite, atendite
Atendite”
 
(Este cântico é muito difícil de cantar devido à sua linha melódica, é por isso que a Verónica faz a preparação já citada)
 
A Procissão segue, depois, para a igreja do Mosteiro, cantando a Verónica em mais duas estações (predeterminadas, sempre precedida pelos motetos). Uma vez aí, ouve-se o Sermão do Calvário, proferido junto da cobertura preta. Durante o mesmo, quando o Padre refere a expressão “e o dia fez-se em trevas”, denunciando assim o momento da morte, o pano cai e surge a imagem de Cristo morto, pregado na cruz, junto de sua Mãe e de Maria Madalena.
Na noite desse dia, juntam-se várias pessoas, em torno dessa imagem, e cantam-se as Chagas e os Martírios, cânticos que traduzem o sofrimento de Jesus.
O Domingo de Ramos começa com uma celebração, de manhã, na Igreja Matriz (antiga), onde são benzidos os ramos – os das crianças são geralmente enfeitados com rebuçados e bolachas – seguindo-se nova procissão com destino à igreja do Mosteiro (actual Matriz), onde se continua a celebração deste Domingo festivo.
Na Quinta-feira Santa, iniciam-se os rituais e as celebrações da Semana Santa. À meia-noite, decorre a cerimónia do lava-pés, em que se recorda a Última Ceia de Cristo com os discípulos, actualmente, representados por doze crianças (noutros tempos, doze idosos). Segue-se uma procissão ao horto das oliveiras, onde se cantam as chagas e martírios, entre outros cânticos alusivos à Paixão de Cristo.
Na Sexta-feira Santa, dia da Morte de Cristo, continuam todas as celebrações de adoração.
 
No Sábado de Aleluia, à noite, organiza-se a cerimónia da Ressurreição, com rituais de fogo e de água (como símbolos da vivência do cristianismo), benze-se o Círio Pascal e a água, durante a Vigília Pascal. Quando termina este Celebração, já madrugada dentro, o povo toca pífaros, campainhas e sinetas, entre outros instrumentos, anunciando a alegria da ressurreição de Jesus Cristo. Posto isto, em grande grupo, deslocam-se até à igreja velha e, a partir daí, inicia-se o ritual das Alvoradas, pelas ruas da Freguesia, anunciando o Domingo de Páscoa e, consequentemente, o final das privações.
 
DANÇAS E CANTARES
O povo de Lorvão caracteriza-se pela sua vivacidade e alegria, pelo que o seu folclore adquire as mesmas características. Os cantares tradicionais compõem-se de melodias que soam bem e, ao mesmo tempo, convidam à dança, dada a sua extraordinária beleza. Com isto se pode afirmar que, os naturais desta região, eram caprichosos e perfeccionistas. O que não é de estranhar, visto que, se por um lado, Lorvão é terra de tradição histórica e cultural, com algum desenvolvimento em relação às aldeias vizinhas; por outro lado, sempre foi terra de grandes músicos que entretinham facilmente estas gentes. É graças a esta riqueza folclórica, em danças e cantares, que os grupos da Região, se orgulham de fazerem as suas recolhas apenas na própria Freguesia. Deste modo, as suas danças são caracterizadas por uma grande vivacidade, alegria e ritmo; enquanto que os seus cantares se destiguem pelos descantes.
Contudo, não se pode deixar de referir que estas tradições são fruto de algumas influências de regiões vizinhas. Pois, se por um lado, se vislumbram raízes da zona da Borda d’Água, para onde os homens se deslocavam para comercializar os famosos palitos de Lorvão, por outro, se descobrem marcas da Beira Alta, provocadas pelas deslocações de fidalgas, burguesas e familiares, dessa região, ao Mosteiro de Lorvão. 
Nesses tempos, as danças e cantares eram executados, na maioria das vezes, nos grandes espaços, chamados casas da brincadeira, ou largo do Mosteiro, ou ainda, no largo das festas em redor do pavilhão.
Em geral, estes convívios ocorriam durante as tardes domingueiras, ao som de bandolins, violas, rebeca, concertina e cavaquinhos, dos cantares ao desafio, onde o Vira e o Fado provocavam o regozijo de todos.
A Quinta-feira da Ascensão, mais usual pelo Lorvão, e o dia das merendas eram dias Santos de Guarda, onde o canto, a dança e o melhor traje se evidenciavam.
As fogueiras de São João eram, e são ainda, sinais de grandes dias de folia, como se observa nesta quadra:
 
“Ai S. João adormece
Ai nas escadinhas do coro
Ai as freiras deram com ele
Ai arrepelaram-se todo”
 
Os serões de palitos, em que homens, mulheres e crianças se juntavam à luz da candeia do mancebo, eram igualmente épocas privilegiadas para a dança e o cantar tradicional, como forma de combater a fadiga.
Também se cantava durante as vindimas, a sacha do milho e a apanha da azeitona.
Nas grandes desfolhadas (escamisada do milho) na eira e nas terras, onde se criava o milho, juntavam-se ranchos de gente para ajudar. O que não era de estranhar, pois se aproveitava sempre para namoriscar um pouco, com o pretexto de se ter encontrado a espiga encarnada (abraço), conforme se denota nos seguintes versos:
 
Um abracinho bem apertado
Para quem ama não é pecado
Não é pecado não não
Um abracinho do meu coração
 
Actualmente, os grupos folclóricos locais recuperaram algumas das modas mais típicas da região, como o Verde Gaio de Lorvão, a Senhora Bela, o Vira de Lorvão, o Teus Olhos Morena e o Malhão de Lorvão, entre tantas outras que ainda encantam os que as ouvem e apreciam as danças que as acompanham.
Fazem igualmente parte da tradição folclórica de Lorvão, o anúncio do Ano Novo, cantando-se pelas ruas, as intituladas Janeiras, logo seguidas do cantar dos Reis. Deste costume, transcrevem-se aqui, apenas alguns versos daqueles cantares populares:
 
Janeiras
(…) S. José foi buscar lenha
Pr’aquecer Virgem Maria,
quando S. José chegou
já Jesus era nascido;
nasceu nuns pobres portais
que nem uns paninhos tinha!
Lançou as mãos à cabeça.
Uma touca que trazia,
Fê-la em quatro pedaços.
Menino de Deus cobrias.
(…)Glória seja Deus pai,
E a Deus Filho também;
Glória ao Espírito Santo,
Para todo o sempre, Amen.
 
Vivas
Vivam os senhores desta casa
Mais os anos que desejam,
Companhia duma rosa
Que foram buscar à igreja.
(…) Viva lá o senhor…
Assentado num esteirão:
Deite a faca ao fumo
Dê pra cá um salpicão.
 
Reis
Nobre casa, honrada gente,
Escutai ouvi-lo-eis;
Uma cantiga tão linda
Que se canta pelos Reis.
São chegados os três reis
Da parte do oriente,
Visitar a Deus menino, 
Alto Deus Omnipotente. (…)