Artesanato

PALITOS DE LORVÃO
 
O artesanato é marcado pela produção artesanal de Palitos.
De pá e bico ou artísticos, de flor ou pestana, o fabrico de palitos teve, segundo a tradição, origem no Mosteiro de Lorvão, já que as freiras os produziam para decorar bolos e doces. Passariam, posteriormente, a ser produzidos pelas populações locais e vizinhas, levando, ao longo de muitos anos, o nome da freguesia a todo o mundo. Lorvão seria mesmo intitulada, por Leite de Vasconcelos", a "capital do palito".
 
Utilizando madeira de salgueiro ou choupo, a manufactura dos palitos, é faseada: os rolos de madeira são descascados e secos ao sol e no forno da boroa, após o que são rachados; colocada a coira em cima do joelho, as mãos dos artesãos manuseiam a navalha transformando o pau em palitos, que, vendidos directamente a particulares ou a comerciantes entravam no circuito comercial. Apesar de a sua produção ser hoje mais diminuta, prevalece em muitas localidades a tradição desta manufactura.
 
Do livro, Os Palitos na Freguesia de Lorvão – Da Manufactura à Maquinofactura, de Paula Cristina Ferreira Silva, com o apoio do Município de Penacova, extraiu-se o seguinte texto acerca da tradição da manufactura de palitos nesta autarquia:
 
“O estudo do artesanato constitui uma importante forma à compreensão do passado, uma vez que permite abordar, para além dos processos produtivos que lhe são específicos, os sistemas de valores e representação dos artistas populares que veiculam a mentalidade de certas comunidades humanas, em determinadas épocas. 
 
Enquanto compilação de saberes tradicionais, as actividades artesanais representam formas de cultura popular que tendem a desaparecer com os processos de normalização impostos pela economia moderna. (…)
Segundo a tradição, o fabrico de palitos teve a sua origem no Mosteiro de Lorvão. De início eram feitos pelas freiras para decorar os bolos. Mais tarde, passaram a ser produzidos pelas criadas, generalizando-se ao resto da população. Inicialmente, o obectivo fundamental era a decoração que, mais tarde, se transformou em utilidade prática, existindo o objectivo inicialmente nos palitos em flor.
 
Inicialmente, a matéria-prima do palito era o salgueiro branco, que mais tarde foi substituída pelo choupo. Convém salientar que os palitos de flor continuam fiéis ao salgueiro que era a única madeira que mais se adequava à sua manufactura.
Para acompanhar o seu fabrico torna-se necessário seguir as diversas fases. Inicialmente, os rolos de salgueiro são secos ao sol e, depois, nos fornos da broa. Seguidamente, o pau é rachado pelos mais experientes e transformado em palitos, com a ajuda de uma navalha, que se trabalha sobre uma coira, colocada previamente em cima dos joelhos. Quando o palito estivesse confeccionado era vendido aos particulares ou entregue aos comerciantes e industriais que os enviavam para os seus clientes, levando o nome dos lugares da freguesia de Lorvão aos quatro cantos do país e do mundo, podendo esta zona ser considerada, a capital do palito.
 
Trata-se de uma actividade de cariz familiar, como é vulgar nas artes tradicionais, em que o testemunho passa de pais para filhos. (…)
O avanço tecnológico causou sérias alterações que se repercutiram nos palitos. Em Lorvão, a maior parte dos paliteiros desapareceram e foram substituídos pelas  máquinas. 
 
Lorvão, terra de paliteiros, deve o seu desenvolvimento ao Mosteiro (…).
É variada a tipologia de palitos manufacturados pelas paliteiras de Lorvão. De acordo com a obra supracitada, existem pelo menos 7 tipos diferentes, que se passam a caracterizar:
 
Os palitos de pá e bico, são palitos lixados, aguçados numa das extremidades, enquanto a outra termina em pá, cujo tamanho é variável. Podem ser grandes ou pequenos, conforme a localidade onde são produzidos. Geralmente, os palitos de Lorvão e São Mamede eram considerados palitos de segunda, ordinários ou maganos, feitos em grandes quantidades e sem aperfeiçoamento. Contrastando com esses palitos, surgem os palitos de primeira, bem feitos, palitos mais grossos, mais morosos, feitos por unidade. As pessoas que faziam os de segunda, eram apelidados de piçoqueiros ou estroceiros.
Os palitos de dois bicos, tal como o nome indica, têm as duas extremidades aguçadas, variando conforme a medida, pois podem ser curtos ou compridos.
Os croques eram os paus partidos e lixados que serviam para acender fogões e para os chupa-chupas.
 
Os palitos serrados são palitos sem bico, parecidos com os croques mas mais perfeitos.
 
Os palitos de relógio são parecidos com os de dois bicos, mas mais compridos, que serviam para os relojoeiros limparem os relógios.
 
Os palitos gigantes eram compridos, indicados para farmácia.
 
Os palitos de flor e pestana eram palitos com motivos decorativos, que se produzem ao levantar, com a navalha, pequenas aparas de madeira que se enrolam sobre si mesmas. A matéria-prima usada para executar este tipo de palitos era laborada de modo diferente. Os troncos de salgueiro eram adquiridos e serrados perto do local de trabalho. Os troços eram abertos com um podão e, depois, descascava-se a madeira, tiravam-se os nós e colocava-se a secar ao sol, para tirar a humidade. Ao contrário da utilizada para os palitos de pá e de bico, esta madeira não vai ao forno. De seguida, arrumava-se a madeira num lugar onde não apanhasse nem vento, nem sol. Posteriormente, abria-se com a navalha, até se obterem paus que permitiam a execução dos palitos. Este tipo de trabalho diferia, quer se tratasse de palitos de flor, em que os paus a trabalhar são reboludos, quer se tratasse de palitos em pestana, com paus de forma mais achatada.
 
Para a decoração destes palitos, a artesã ia alisando os paus que, posteriormente, eram enfloreados. Nos de flor, lascavam-se pequenas aparas de madeira, que se enrolavam sobre si mesmas. Nos de pestanas, as farripas eram primeiro de um dos lados e, só depois, do outro. Por fim, talhava-se a cabeça do palito, que era lixada e separada do pau.
 
Acabados, os palitos eram contados e atados em maços e, de seguida, encaminhados para o seu comércio. Cada comerciante tinha várias mulheres a trabalhar em sua casa, por sua conta, a embalar os mesmos. As embalagens também diferiam de comerciante para comerciante, pois podiam ser carteiras de gaveta, tubos ou simples cartuxos. Não obstante, estas também tinham o seu lugar de destaque, visto que o palito devia ser um artigo luxuosamente apresentado.
 
A produção dos mesmos destinava-se, essencialmente, à venda a particulares e a comerciantes ou industriais que os enviavam para os seus clientes nacionais e estrangeiros (Europa, América e África).
 
Ao longo do século XIX, várias foram as formas de divulgação desta pequena indústria. Promoveram-se exposições com o objectivo de divulgar esta forma de artesanato. As exposições distritais de 1869 e 1884, que tiveram lugar em Coimbra; as exposições nacionais; a Exposição da Indústria Portuguesa de Lisboa, em 1888 (onde foram premiadas sete expositoras de palitos, três com medalhas de cobre e quatro, com menção honrosa) e a Exposição do Palácio de Cristal (Porto), em 1891; e exposições internacionais: Paris, em 1900 e 1910, Panamá e Pacífico, em 1915, Argentina e Rio de Janeiro, em 1922.Dadas as características desta “indústria artesanal”, muitas eram as horas que famílias inteiras passavam a confeccionar estes marquesinhos. Durante tais tarefas, teciam-se vidas, proferiam-se calúnias e boatos, construía-se a memória da  aldeia, ou então cantavam-se versos como os que, a seguir, se transcrevem:
 
De pequeninas a velhas
Nesta terra de Lorvão
Ai, ai o trabalho dos palitos
O trabalho dos palitos
É o preço do nosso pão.
 
Palitos duros branquinhos
Como hastes de marfim
Ai, ai entram em todas as casas
Entram em todas as casas
Vão ao mais nobre festim.
 
A raspa que vai ficando
É cor do nosso luar
Ai, ai a poeira de ilusões
A poeira de ilusões
Que andamos a acalentar.
 
Nas horas calmas de estio
No inverno aos serões
Ai, ai vamos fazendo palitos
Vamos fazendo palitos
Enquanto soam canções.
 
Palitos assim perfeitos
Não há quem os faça igual
Ai, ai Lorvão é já uma rosa
Lorvão é já uma rosa
No jardim de Portugal.
 
De acordo com a obra, previamente citada, este é um espólio que urge preservar num Museu do Palito que passaria, assim, a representar “a identidade e a história da vila de Lorvão e das suas gentes, permitindo estudar, salvaguardar, conservar e valorizar este património para a sua transmissão às gerações vindouras”.
 
Desde o início do Reino de Portugal, os conventos sempre mereceram as melhores intenções dos soberanos. Como os reis, grandes senhores instituíram conventos, tanto para satisfação da real fé, como para pagamento e remissão de pecados, em regime de contrato celeste, esperando, em troca, as portas do céu.
Os conventos eram a única alternativa digna, às casas senhoriais, para o acolhimento das comitivas de gente importante do reino ou de reinos vizinhos, que se deslocavam com frequência, em viagens de negócios ou de simples, mas agradável, lazer. Durante as permanências mais demoradas, havia lugar para se servirem lautas refeições. No entanto, quando as estadas eram curtas, os doces desempenhavam o papel principal no obséquio.
 
No Convento de Lorvão, os usos cistercienses, seguindo a Regra, limitavam a alimentação a uma dieta praticamente vegetariana: pão com abundância, legumes cozidos e algum peixe ou carne de aves. Só em ocasiões festivas, se juntava uma pitança constituída por pão alvo, queijo, fruta ou outros manjares. Entre estes, incluía-se o arroz, com que se assinalavam as festas litúrgicas como a Ascensão, Pentecostes, Trindade, Santíssimo, Santa Teresa e São João Batista. A alimentação era complementada com doces, quer em consoada, na véspera, quer em merenda, no próprio dia.
 
A aquisição de tigelinhas e caixas indica que os doces eram ofertados, igualmente, aos hóspedes e, até, a pessoas estranhas ao convento, sobretudo no dia de Santa Teresa. Da doçaria, a mais utilizada nesses dias, eram os pastéis, os manjares brancos, os confeitos milharós, embora haja também algumas referências, sobretudo no século XVII, a maçapães, tigeladas, broas de amêndoa, biscoitos, talhadas, manjar real, marmelada, broas de ovos, ovos doces, ginetes, tortilhas, queijadas, linguadas, morgados, papos de anjo, caramelos, melindres, farténs de amêndoa, capelas de ovos, bolos de bispo e alfinetes. ( In Borges, Nelson Correia – Arte Monástica no Mosteiro de Lorvão, Refeitório)